sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Amigo, Meu Grão de Areia

        Vou lhe contar uma história, que por sua vez, me foi contada por um triste grão de areia, que felizmente, encontrei em uma das muitas praias de minha vida.
        Disse-me o grão de areia, que morava tranqüilo em uma linda montanha, a mais bela entre todas. Cheia de vida. Muitas vidas. Muito verde. Animais e plantas de todas as espécies, água em abundância. Um paraíso.
        Porém, um dia, esta montanha, cheia de orgulho e se sentindo toda poderosa, falou para que todos a ouvissem:
        - Eu sou a mais linda das montanhas, a rainha, e nada poderá me destruir, me remover. Sou mais poderosa que o vento, o sol, a chuva e o frio, juntos.
        O vento, que por ali passava, ouvindo isso, triste e ofendido, procurou o sol, a chuva e o frio, para contar o que havia sucedido.
        O sol, com todo o brilho e calor, falou humildemente:
        - Sim, ela é mais poderosa do que todos nós, juntos.
        - Juntos, lhe damos calor, alimentamos as suas fontes, lhe damos o que beber, permitimos que se refresque e alisamos suavemente a sua face, com carinho e amor.
        - E ela, sabe muito bem disso.
        - Vamos então, um a um, aparentemente fracos, enfrentá-la.
        Todos se indignaram, porém resolveram aceitar a sugestão do sol; e assim, o vento, a chuva e o frio, se afastaram e deixaram ao sol, a primeira batalha.
        Ele brilhou constante e fortemente por muito tempo. Sozinho. E deste modo, as matas quase desapareceram, os rios secaram e os animais buscaram outras áreas onde viver.
        A seguir, o sol se recolheu e deixou ao frio, a segunda batalha.
        Pouca coisa resistiu ao frio intenso, a vegetação que pouco restava, morreu; as poucas águas dos lagos se congelaram e a vida começou a morrer nesta montanha.
        O frio, tendo cumprido a sua tarefa, deu lugar ao vento, que despiu essa montanha de tudo quanto a protegia, e a cada dia, se tornava mais fraca. Vulnerável. Desnuda, e sem qualquer resistência, esta montanha orgulhosa teve que enfrentar a chuva, que veio intensa e corajosa, pronta a retirar, grão a grão, a terra que a natureza, com suas leis havia provido de tanta beleza, tanta vida, para reduzi-la simplesmente em uma planície, e ter, cada uma de suas partes, seus grãos de areias espalhados pelos rios, mares e oceanos.
Um pouco dela, para contar a todos os homens, o destino que orgulhosamente, escolheu para si.
        Nós, que nos sentimos tão poderosos e absolutos, nos esquecemos da dependência que temos de todos que nos cercam e nos auxiliam, por menos importantes que possam parecer.
        Somente seremos fortes, quando estivermos firmemente unidos.
        Fiéis aos amigos que nos cercam. Simples, como um grão de areia.
Lyrio do Valle

in http://www.fadadasrosas.com.br/

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A Paz!

Querem saber como vivo? Lhes direi...
Vivo do vento que me mantém lúcida e acordada para que eu não adormeça na caminhada.
Vivo do mar que me limpa do cansaço da luta e me recompõe para que eu continue.
Vivo das cores que me ensinam os remédios e os alimentos para que eu sobreviva forte para trabalhar.
Vivo da riqueza do meu melhor esforço, meu amor. Planto-o por onde passo, não perco nem mesmo a terra de um vaso quebrado, pois ali a semente germina.
E sou feliz assim.
Sou simples, pois preciso de pouco.
Sou calma, pois aprendi a esperar.
Tudo vem.
E o campo arado e adubado produz coisas melhores, que valem a pena ser preservadas.
Falo pouco, pois optei por grandes ocupações, como um trabalho escolhido de ouvir e por isso não me sobra tempo para as palavras.
Penso muito, mas corretamente.
Desejo só o necessário, ocupo pouco espaço e por isso não sofro por possuir.
Sou feliz, sou abençoada, sou reconfortada e apreciada.
Sou aquilo que todos lutam para obter.
Querem saber quem sou eu, já que sabem como vivo?

SOU A PAZ...

In alexandredoradio.blogspot.com

domingo, 28 de novembro de 2010

À Saint-martin on se baigne avec les avions!


O banquete da Palavra

Solidão

Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... Isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... Isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos... Isto é equilíbrio.
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida... Isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é circunstância.
Solidão é muito mais do que isto.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma....

Francisco Buarque de Holanda

                                                       in alexandredoradio.blogspot.com

O chinês Laila

        Um certo dia, um chinês chamado Lailai resolveu dedicar sua vida à meditação. Decidiu que iria para um mosteiro no alto de uma grande montanha, com objetivo de encontrar a iluminação.
       Viajou muitos dias e ao chegar em frente ao portão principal do mosteiro, encontrou aquele que seria o seu Mestre. Lailai foi recebido com muito amor pelos monges que há muitos anos viviam por lá. E dizia a todos:
       - Vim para buscar minha iluminação.
       Passados alguns anos, o monge Lailai começou a ficar descontente com a sua situação, pois não conseguia encontrar o caminho da luz.
       Procurou o mestre, e disse-lhe:
- Amado Mestre, me ensinastes muitas coisas belas e importantes nesta minha caminhada, mas ainda não consegui alcançar a iluminação em minha vida. Quero desistir da vida de monge e voltar para a minha aldeia.
E o Mestre respondeu:
       - Tudo bem Lailai. Já que você está desistindo desta vida de meditação, quero lhe acompanhar na descida da montanha. Amanhã, às 4 horas da manhã, estarei lhe esperando no portão principal do mosteiro.
No horário marcado, Lailai encontrou o seu Mestre.
Ao sair do mosteiro o Mestre perguntou ao Lailai:
      - Querido filho, o que estás vendo neste momento?
Respondeu Lailai:
       - Mestre, vejo o orvalho da madrugada, o cheiro das flores, o céu estrelado e uma lua maravilhosa.
Continuaram descendo a montanha. Passada uma hora de caminhada, o Mestre pergunta:
       - E nesta parte da montanha, o que está vendo?
Respondeu Lailai:
       - Vejo os primeiros raios de sol, escuto o canto dos pássaros e sinto a doce brisa da manhã penetrando em todo o meu ser.
E assim continuavam a descer a grande montanha.
Passado algumas horas, o Mestre voltou com a mesma pergunta e Lailai assim respondeu:
       - Mestre, neste trecho da montanha, sinto o calor do sol, o som do riacho, o orvalho evaporando e os animais silvestres em harmonia com toda a natureza.
Seguiram a caminhada.
       Chegaram ao pé da montanha ao meio dia. E mais uma vez, o Mestre fez a mesma pergunta e teve como resposta:
       - Mestre, vejo como a montanha é bela, as árvores da floresta, o riacho doce que circunda o vale, o camponês cuidando da plantação de arroz. Vejo também mestre, uma criança feliz brincando com os seus amigos.
Então o Mestre lhe falou:
       - Agora você já poderá voltar para o mosteiro.
Espantado, Lailai perguntou qual seria a razão da volta ao mosteiro.
Respondeu o Mestre:
       - Porque você já encontrou a Iluminação. Em cada etapa da descida da montanha você percebeu a importância de cada detalhe da natureza, compreendendo os seus sons, seus cheiros, suas imagens, as suas cores e suas vidas. Assim é que devemos ver e interpretar esta longa caminha. A isto tudo, nós chamados de iluminação.
       O meu recado para você, hoje, é este: A cada degrau da vida, veja a beleza que ela nos oferece.

                                                                              Alexandredoradio.blogspot.com